• Eric Gustavo Cardin

A tríplice fronteira e os velhos discursos sobre transações ilícitas e terrorismo

Atualizado: Mar 15




No final de novembro a revista “Veja” publicou um artigo que chamava a atenção para o fato de que até dois terços das transações financeiras ocorridas na região da Tríplice Fronteira seriam ilícitas. A informação estaria baseada em um estudo realizado por uma consultora americana chamada Vanessa Neumann, que foi publicado recentemente no livro “Lucros de Sangue” pela editora Matrix. Sem problematizar o conteúdo e a metodologia utilizada na pesquisa, o que chama a atenção é o momento em que tal publicação ganha destaque.


Na semana em que ocorreu a publicação do artigo, o presidente norte-americano Donald Trump alertou o presidente argentino Mauricio Macri sobre a importância geopolítica da Argentina e sobre o risco da região de confluência das fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina tornar-se um campo de batalha na luta contra o terrorismo. Neste sentido, Trump solicitou que Macri qualificasse o Hezbollah como uma organização terrorista e pediu para o governo argentino incorporar seu aparato de inteligência a um sistema mundial instalado em Washington, que teria como objetivo controlar e reprimir as operações ilegais supostamente planejadas pelo governo do Irã.


Mais recentemente, exatamente no dia 07 de dezembro, foi a vez da revista “Isto é” abordar o assunto ao publicar uma entrevista com a autora do momento, Vanessa Neumann. Respondendo objetivamente as questões realizadas pelo periódico brasileiro, Neumann reforçou o discurso que associa contrabando, pirataria e terrorismo, chegando a afirmar que o PCC teria relações com o Hezbollah dentro do território paraguaio. Contudo, em busca de objetividade em suas respostas faltaram as fontes que justificariam as posições explicitadas pela autora.


Todavia, nada disso é novidade. Nos primeiros anos do Século XXI, a mesma imprensa, associada a setores de “inteligência” norte-americana, publicaram artigos denunciando supostos terroristas da tríplice fronteira. Membros das forças armadas dos Estados Unidos, utilizando da mesma retórica de Neumann, espirraram acusações após o atentado às torres gêmeas. A comunidade árabe local foi estigmatizada e criminalizada, pessoas foram detidas e nada foi provado. Naquele momento, a publicação do livro “Ilícito”, de Moisés Naím, cumpriu papel similar aquele esperado de “Lucros de Sangue”.


O discurso construído naquele momento histórico serviu como justificativa para um conjunto de ações, que em alguma medida modificaram a forma de atuação dos dispositivos de segurança que atuam nas regiões de fronteira. Neste período foram desenvolvidas operações para acabar com os comboios que saiam de Ciudad del Este/Paraguai transportando mercadorias para o Brasil; ocorreu um aumento do efetivo de policiais atuando na fronteira; houve a inauguração da aduana de Foz do Iguaçu localizada próxima a Ponte da Amizade; além da política de cota zero e das inúmeras operações especiais desenvolvidas na Tríplice Fronteiras.


No entanto, o impacto do discurso que defendia a existência de terroristas na região de confluência da fronteira do Brasil, Paraguai e Argentina não foi apenas prático, ele contribuiu de maneira significativa na construção e no reforço de um imaginário composto por uma suposta insegurança sentida por aqueles que visitam e vivem na fronteira. Enfim, no começo do Século XXI, foi vivenciado um cruzamento de interesses econômicos e políticos que, por meio da utilização de informações especificas pautaram ações estratégicas na fronteira.


Agora, em um momento onde Donald Trump, Mauricio Macri, Vanessa Neumann, Jair Bolsonaro e Reinaldo Azambuja, entre outros, destacam a importância das fronteiras nas políticas de segurança e explicitam a necessidade de um maior rigor no controle destes espaços, políticas que se apresentam como metáforas de isolamento, com muralhas e fronteiras blindadas, ganham destaque e explicitam uma guinada para um entendimento das fronteiras como instrumentos de controle e não como lugares de encontro.


O que resultará destes movimentos que, embora ocorram separadamente, possuem objetivos convergentes, dependerá da articulação dos discursos com políticas concretas executadas pelos diferentes Estados. Atualmente, existem três situações nas fronteiras brasileiras que precisaram ser acompanhadas. Além das questões relacionadas aos recursos ilícitos que circulam na fronteira com Paraguai e a suposta presença terrorista, também merecem destaque a forma em que o governo brasileiro receberá a reeleição de Evo Morales na Bolívia e a forma em que ele intervirá na crise migratória venezuelana. As ações que serão tomadas pelo próximo presidente brasileiro em cada uma destas questões explicitaram suas posições referentes as relações internacionais, principalmente aquelas referente aos nossos países vizinhos.



Artigo originalmente publicado no jornal Gazeta de Toledo. Link para o acesso:


https://www.gazetatoledo.com.br/NOTICIA/41408/A_TRIPLICE_FRONTEIRA_E_OS_VELHOS_DISCURSOS_SOBRE_TRANSACOES_ILICITAS_E_TERRORISMO#.XBaYKc17nIU


10 visualizações

© 2023 por Consultoria estratégica. Orgulhosamente criado por Wix.com