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Brasil, Colômbia e Venezuela caminham em direção a uma possível guerra?

Atualizado: 21 de Jan de 2019



Durante a campanha de segundo turno para a Presidência da República do Brasil, as relações políticas do país com a Venezuela foram constantemente pautadas. Se por um lado, o filho do presidente eleito falou publicamente sobre a possibilidade de intervenção brasileira no país vizinho, militares que apoiam Jair Bolsonaro, entre eles o próprio General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, futuro Ministro da Defesa do próximo governo, descartou qualquer tipo de ação bélica do Brasil na Venezuela. Não suficiente, explicitou que os esforços humanitários deverão ser mantidos e que qualquer esforço no sentido de fechar a fronteira entre os países seria inviável. Em qualquer situação, entendemos que a questão merece um olhar mais acurado.

           No entanto, a sede por violência e a expansão do mercado de armamentos presentes em um pensamento fascista de uma parcela dos eleitores de Bolsonaro fizeram com que a possibilidade do Brasil entrar em um conflito armado fosse considerada “positiva” por alguns. Contudo, este imaginário é descolado de qualquer experiência concreta do significado humanitário de uma guerra e, mais do que isso, é baseado em uma completa subestimação da força da própria Venezuela, que é um Estado Militar, com apoio de grandes potências bélicas, onde se destacam Rússia e China. Enfim, as coisas não simples ou parecidas com jogos de tabuleiro ou de vídeo game.

          Há um equilíbrio muito grande entre as forças militares da região, que se caracterizam como forças de dissuasão e não como forças de intervenção, possuindo pouca ou nenhuma capacidade de projeção de poderio militar além de seu território, já que o equipamento é em grande parte de segunda ou terceira mão, em quantidade irrisória, e planos de readequação e modernização são constantemente postergados por questões financeiras. Além disso, analisar corretamente a quantidade, a qualidade e a operacionalidade dos equipamentos e o nível de treinamento e capacidade tática das forças é algo muito difícil para um civil, já que praticamente inexistem especialistas não-militares nesta área. Também não é demais argumentar que as Forças Armadas da região participam diuturnamente de missões de paz internacionais e fazem treinamentos frequentes com forças similares mundo afora, mas poucas tiveram experiência real de combate com opositores de outros países e quanto esta experiência houve ela foi num papel de menor importância global, ou foi desastrosa, a exemplo da Guerra das Malvinas. Ademais, quando se analisa os conflitos inter-regionais, a maioria das forças não estavam diretamente envolvidas ou não foram acionadas diretamente.

            Se pensarmos a situação como um jogo, é preciso partir da observação que o esforço de uma guerra poderia ser demasiado e neste contexto, o suposto jogo de xadrez que caracteriza as relações internacionais regionais e que poderia resultar efetivamente em um conflito bélico é muito mais complexo do que um simples jogo de damas, como pensam muitos eleitores, exigindo o estabelecimento de relações com um número de jogadores maior que Brasil, Colômbia e Venezuela. Pelas questões de limites, minimamente Peru, Equador, França e Holanda (por causa da Guiana e do Suriname) estariam envolvidos. A se pensar nas questões comerciais, Argentina e Bolívia idem.

           É evidente que as peças estão sendo movidas. Na onda das fake news, circula na internet a existência de um interesse explicito do governo colombiano em uma futura aliança com o Brasil para o desenvolvimento de uma possível intervenção na Venezuela. Algumas declarações contribuem com esta hipótese. Em meados de setembro de 2018, o embaixador da Colômbia nos Estados Unidos admitiu a possibilidade de intervenção colombiana em um evento do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais e durante o mês de outubro o ex-líder das FARC também falou na mesma direção. Além disso, o fato da Colômbia não ter acompanhado a decisão contraria à intervenção explicitada na Declaração do Grupo de Lima, no qual o Brasil também faz parte, reforça a existência das más intenções do país vizinho.

         No final de 2018, três soldados venezuelanos foram mortos na região amazônica por um grupo paramilitar colombiano, supostamente o Exército de Liberação Nacional (ELN), esquentando ainda mais o clima entre as nações. Neste contexto, embora o Ministro das Relações Exteriores da Colômbia negue que exista conversas no sentido de uma possível aliança com o Brasil no sentido do estabelecimento de uma intervenção na Venezuela, nitidamente podemos afirmar que o suposto xadrez ainda não acabou. No bojo disso, o presidente venezuelano subiu um tom, mas dentro do seu direito e do que se espera que faça. Tal reação pode ser considerada normal nas relações entre países como instrumento para forçar o outro a uma negociação mais vantajosa e Maduro parece estar agindo neste sentido.

           O que cabe ressaltar é que a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, assim como a maioria das fronteiras latino-americanas, sempre foi porosa e palco de uma série de ilícitos. Não é demais lembrar que Pablo Escobar Gavíria cresceu e desenvolveu seus negócios a partir do contrabando que trazia da Venezuela e é sabido também que as Forças Armadas Revolucionárias da Colombia (FARC) se embrenhavam em selvas que não conhecem limites internacionais a fim de se proteger e de se organizar. Ainda que o narcotráfico e os crimes a ele associados sejam mais violentos e representem uma ameaça grande à população, nenhuma ação militar desenvolvida na região pressupôs o ataque de uma nação contra a outra, o que houve foram ações de reaparelhamento, treinamento e atuação conjunta, vide o Plano Colômbia, ou de presença e dissuasão, como o Calha Norte e o Sivam brasileiros, ou ainda a atuação conjunta que resultou na libertação de Ingrid Betancourt e no desmantelamento das FARC como força paramilitar.

          O Brasil possui, por natureza, uma preponderância econômica e política sobre a região, dentro do que se caracteriza como uma hegemonia regional, cabendo o papel maior às potencias globais, e localmente a nossa voz sendo a de maior destaque. É quase uma tradição em nossa diplomacia o respeito às decisões e as tradições internas de cada país e se formou ao longo dos anos uma tradição de projeção de softpower muito mais do que hardpower sobre nossos vizinhos e sobre o mundo. Assim utilizamos, e muitas vezes com sucesso, nossa disposição ao diálogo e à pacificação, e não ao confronto para nos fazermos presentes no cenário global e regional. Cita-se a coordenação da missão MINUSTAH no Haiti, assim como o apoio militar logístico e consensuado à libertação da senhora Betancourt e às ações sobre as FARC. Tradições diplomáticas e militares são difíceis de serem rompidas porque isto envolve a inoculação de uma nova forma de pensar e agir em um corpo técnico extremamente qualificado e cioso de suas responsabilidades e tradições.

             É certo que o resultado da eleição presidencial brasileira tem impacto no jogo político, militar-securitário e econômico da região e isto tem agitado discussões em torno de questões de geopolítica e de fronteiras envolvendo não apenas a situação venezuelana, mas também acordos de cooperação e comércio. O grupo político/econômico que assumirá o governo brasileiro em 2019 vem indicando mudanças na forma em que o país vem estabelecendo suas relações internacionais, o que deixa possíveis espaços de manobra neste tabuleiro. Logo, como qualquer jogador mediano, precisaremos observar as próximas jogadas para termos qualquer certeza referente as estratégias que o Brasil desenvolverá na geopolítica regional nos próximos quatro anos, lembrando sempre que uma jogada mal calculada ou mal executada poderá ter consequências muito ruins.


Autores do Post:


Eric Gustavo Cardin. Doutor em Sociologia. Pós-doutor em Antropologia Social. Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Membro do LAFRONT.


Gustavo Biasoli Alves. Doutor em Ciência Política. Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Membro do LAFRONT.


Texto originalmente publicado no jornal Gazeta de Toledo. Link de acesso:

https://www.gazetatoledo.com.br/NOTICIA/41806/BRASIL_COLOMBIA_E_VENEZUELA_CAMINHAM_EM_DIRECYO_A_UMA_POSSIVEL_GUERRAS#.XD3Ogs17nIU

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