• Max André Araujo Ferreira

Entre venezuelanos e brasileiros: a realidade na fronteira norte do Brasil

Atualizado: Mar 15


A Venezuela vem sofrendo com graves crises de desabastecimento desde o início de 2015, aprofundada por problemas econômicos que colocaram em xeque o sistema bolivariano e o socialismo do século XXI, sistema esse defendido por Hugo Chávez, em seu discurso no Fórum Social Mundial em 2005.

     Com a licença do presidente Chávez para tratamento médico em dezembro de 2012, assumiu a presidência interina da Venezuela Nicolas Maduro Moros. Em 05 de março de 2013, após Hugo Chávez morrer vítima de um câncer, Maduro assume o cargo de Presidente da Venezuela. Sua gestão vem sendo marcada por declínio socioeconômico, com acentuado crescimento da pobreza, inflação em números assustadores, alta criminalidade e fome por parte de sua população.

      O momento hoje é totalmente inverso ao que ocorreu nos primeiros anos do século XXI. Durante quinze anos a população roraimense utilizava a Venezuela para comprar diversos tipos de produtos, fazer viagem de turismo ou ainda fazer cirurgias plásticas mais baratas. Atualmente, a realidade do Estado de Roraima é outra, hoje são venezuelanos que vêm para o Brasil em busca de serviços e oportunidades de emprego para poderem fugir da grave crise que vive seu país.

     Não tendo mais como sobreviver em seu país, a população venezuelana, se vê forçada a deixar sua terra natal e migrar para países fronteiriços como a Colômbia e o Brasil. A realidade vivida hoje é de crise migratória, são mais de um milhão e meio de venezuelanos que deixaram a Venezuela levando cultura e a força de trabalho para outras regiões.

      Um dos destinos mais procurados pelos venezuelanos é a Colômbia, por haver mais facilidade em se comunicar devido o idioma. Os números de imigrantes venezuelanos que entram no país são dez vezes maiores que no Brasil, por lá, entidades como a Cruz Vermelha e a Organização Internacional para as Migrações oferecem abrigo e alojamento sem falar no trabalho de conscientização da população colombiana para o combate a xenofobia.

      No entanto, a Colômbia também sofre com seus problemas internos, mas entende a necessidade de oferecer ajuda a esses irmãos venezuelanos, uma vez que, na década de 1980, quando os colombianos passavam por uma grave crise econômica e a Venezuela viva um período de desenvolvimento e permitiu a entrada de milhares de colombianos em seu território.

       No Brasil esses migrantes chegam totalmente desamparados e sem políticas públicas para recebe-los. Ao atravessar a fronteira chegam ao Estado de Roraima. Os que possuem melhores condições financeiras, seguem viagem para outros estados brasileiros ou seguem viagem para outros países da América do Sul, enquanto que a maioria permanece na cidade sob a tutela do Estado em abrigos improvisados pelo Exército Brasileiro ou abandonados nas ruas de Boa Vista formando um grande exército de reservas.

       Situado no extremo norte do Brasil, o Estado de Roraima faz fronteira com dois países: Venezuela e Guyana. A cidade de Pacaraima, fica na fronteira entre o Brasil – Venezuela, a 220 quilômetros de Boa Vista, capital do Estado de Roraima. Assim, a cidade corresponde a porta de entrada para receber esses migrantes que partem para Boa Vista, ou seguem o caminho para outros estados da região norte, como, por exemplo, Manaus e Belém.

       Com a chegada da grande massa de venezuelanos ao Brasil, esses migrantes tiveram que passar pelo processo que na geografia é compreendido como TDR - territorialização, desterritorialização e reterritorialização. Na maioria das vezes, este processo é doloroso e deixa para trás marcas de uma vida inteira na busca por novas oportunidades em lugares desconhecidos, sofrendo com xenofobia por parte da população e sem apoio das entidades públicas.

       No processo de desterritorialização, os migrantes deixam a Venezuela, fugindo da fome e da escassez de alimentos e saem em busca de melhores condições de vida. Assim, ele pode ser definido como uma quebra de vínculos, uma perda ou um afastamento de territórios, havendo, consequentemente, uma perda de controle das territorialidades pessoais e coletivas, o que corresponde a perda de acesso a territórios econômicos e simbólicos.

        A territorialização é compreendida como a chegada em outro país, se fixando em um local, que pode ser provisório, como praças, ruas, abrigos, enfim, quando se territorializam formam temporariamente o seu novo território. Esse território logo se modifica com a presença desses venezuelanos, muitos deles montam barracas, perambulam pelas ruas, modificando as paisagens daquela localidade.

      Por último, o processo de reterritorialização ocorre quando os migrantes começam a reproduzir as atividades econômicas, políticas e culturais, partindo de suas experiências e conhecimentos que tinham na Venezuela.

       A vinda de migrantes venezuelanos para o Brasil, trouxe para eles mudanças significativas em suas vidas, no entanto, os laços afetivos com a Venezuela não foram totalmente rompidos, uma vez que, em determinados aspectos os imigrantes estão em constante contato com seus parentes e amigos que lá recebendo ajuda financeira que ganham no Brasil.

       No início do ano de 2016 a influência de imigrantes venezuelanos no norte do Brasil começou a ficar mais evidente no mercado de trabalho formal. Diversas lojas de materiais de construção, restaurantes, salões de beleza, grandes redes de supermercados, entre outros empreendimentos, começaram a contratar essa mão de obra barata, sendo muitas vezes, explorada por comerciantes.

     O mercado de trabalho roraimense, absorve rapidamente os imigrantes venezuelanos mais qualificados, deixando de fora, outras centenas de pessoas que não conseguiram se estabelecer no mercado de trabalho. Para esses migrantes excluídos, cria-se uma massa de trabalhadores desocupados, sobrantes, sob a ótica dos detentores dos meios de produção.

     Entre os anos de 2015 a 2018, o Estado de Roraima passa por uma crise econômica sem precedentes, com a má gestão de recursos públicos, aliada a falta de competência dos gestores, o Estado se afunda em dívidas e o discurso xenofóbico começa a trazer grandes problemas para esses imigrantes. A falta de experiência em lidar com a crise migratória aprofunda ainda mais a relação entre venezuelanos e roraimenses.

      O governo do Estado de Roraima, sem recurso financeiro e sem habilidade política, convoca os bombeiros para criarem abrigos para os venezuelanos que perambulavam pelas ruas da capital. Em grande medida, os venezuelanos estavam abandonados em praças públicas, debaixo de marquises dos comércios, em todos os lugares era visível a presença desses imigrantes.

       Locais como prédios públicos abandonados e a rodoviária internacional de Boa Vista foram responsáveis por abrigar esses imigrantes, que muitas vezes ficam doentes por falta de higiene básica e eram levados para os hospitais públicos e postos de saúde. A população roraimense, que não estava acostumada em dividir os serviços públicos, se sentiu lesada com a presença de imigrantes venezuelanos e o discurso xenofóbico criou ainda mais força.

      No final do ano de 2017, após diversas solicitações de ajuda para o governo federal, o Estado de Roraima, começa a receber ajuda humanitária de ongs e organismos internacionais e o Exército Brasileiro começa a fazer um trabalho humanitário, assumindo a responsabilidade de criar novos abrigos na capital Boa Vista. Muitos recursos públicos são utilizados nessas ações, e com a ajuda do Exército novos abrigos são instalados e recebem uma nova dinâmica com tratamento mais digno e humanitário.

       Ainda no ano de 2018, na cidade de Pacaraima, localizada na linha da fronteira entre o Brasil e a Venezuela, após diversas queixas de furtos e roubos naquela localidade, agravadas pelo silêncio administrativo das autoridades governamentais, a população se revolta e expulsa os venezuelanos com uma forte onda de violência, criando um enorme abismo nas relações entre brasileiros e venezuelanos naquela localidade.

      Neste contexto, a Força Nacional e o Exército Brasileiro intensificam os trabalhos na fronteira, sendo criadas pelo exército as Operações Controle e Acolhida. A primeira no sentido de restaurar a paz e o controle social na cidade de Pacaraima e a segunda com a ideia de humanizar o acolhimento desses imigrantes que atravessam a fronteira com o Brasil.

   Uma grande logística é criada no sentido de receber esses venezuelanos que entram no Brasil. Com uma parceria com diversos órgãos públicos, esses venezuelanos entram no país vacinados e identificados após receberem atendimentos médicos e de ajuda humanitária. Após essa checagem eles são levados de ônibus para Boa Vista para serem instalados nos abrigos de responsabilidade do Exército.

    No ano de 2018, o Governo Federal, por meio da Força Aérea Brasileira, disponibilizou aviões para interiorizar os venezuelanos que estão documentados e gozando de uma boa saúde. Esses venezuelanos são levados para diversas cidades brasileiras e lá são encaminhados para abrigos públicos até serem absorvidos pelo mercado de trabalho. Ao longo do ano ocorreram diversos voos, mas que levaram uma quantidade irrisória de imigrantes, não sendo sentida diferença pela população roraimense na quantidade de venezuelano que circulam pela cidade.

    Contudo, ainda no ano de 2018, com o intenso fluxo de venezuelanos na cidade, começam a surgir vários empreendimentos comerciais formais onde os proprietários desses estabelecimentos são venezuelanos, empregando outros venezuelanos e oferecendo serviços mais baratos para a população roraimense. São salões de beleza, bares, oficinas mecânicas, casas agropecuárias entre outros que modificam o padrão comercial praticado na cidade com a chegada desses imigrantes.

    O mercado informal também ganha novos atores sociais, são diversos os venezuelanos que vendem produtos nas feiras livres da capital, vendem produtos nos sinais de trânsito, oferecem serviços diversos como capina de terreno, eletricista, mecânicos ajudando a fomentar o comércio formiga fronteiriço já bastante dinâmico nesta zona de fronteira.

      O momento hoje é totalmente inverso ao que ocorreu nos primeiros anos do século XXI. Durante quinze anos a população roraimense utilizava a Venezuela para comprar diversos tipos de produtos, fazer viagem de turismo ou ainda fazer cirurgias plásticas mais baratas. A realidade do Estado de Roraima é outra, hoje são venezuelanos que vêm para o Brasil em busca de serviços e oportunidades de emprego para poderem fugir da grave crise que vive seu país. O que a população roraimense precisa entender é que essa dinâmica fronteiriça sempre existiu e sempre existirá nesse espaço geográfico.



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