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Migração e trabalho na contemporaneidade: os haitianos no oeste do Paraná


A pesquisa realizada analisou o processo migratório dos haitianos em Cascavel a luz das transformações do mundo do trabalho, onde a globalização ganha destaque tendo em vista as transformações produtivas que ela enseja e a mobilidade de pessoas como um resultado desse processo de internacionalização do capital e divisão do trabalho. Neste contexto, estudar a presença dos haitianos no oeste do Paraná possibilitou aprofundar o entendimento de como esses imigrantes estão sendo inseridos no Brasil. O desenvolvimento da pesquisa revelou como a imigração está estritamente vinculada às transformações produtivas demonstradas, sobretudo, nos frigoríficos, entendidos como os principais incorporadores da mão de obra haitiana na região. Desse modo, a relação entre imigração e trabalho demonstra como Cascavel se insere no âmbito da migração internacional.

        O Haiti corresponde a um importante exportador de mão de obra para vários países, com destaque para EUA, França e Canadá. O Brasil começou a ganhar destaque como destino deste fluxo migratório a partir de 2010, período em que muitos migrantes haitianos chegaram como refugiados ou imigrantes ambientais, devido ao terremoto ocorrido no país naquele ano, o que desencadeou um processo migratório contínuo até o presente momento. A chegada dos maiores fluxos migratórios de haitianos no Brasil correspondeu a um período de maior dinamismo econômico que impulsionou a internacionalização de regiões como o oeste do Estado do Paraná no sistema econômico global.

        Essa região se vincula ao mercado mundial a partir da exportação de grãos para outros países, importação de tecnologia que dinamizam a reestruturação produtiva, com ênfase nesse estudo para os frigoríficos, exportação de carnes para outras regiões do mundo e incorporação da mão de obra com destaque para a haitiana. Assim, a vinculação entre a globalização como uma forma de dinamização do capital, se expressa no espaço local como no oeste do Paraná através das cooperativas, que são também um meio de impulsionar a presença dos grandes monopólios na região. Essas cooperativas nasceram no interior do Estado através da organização de pequenos produtores rurais para coletivamente enfrentar as barreiras competitivas do mercado. Posteriormente, tais organizações foram potencializadas e consideradas eficazes como alternativa do capital internacional expandir seu domínio. Através dessas cooperativas se estruturam as cadeias avícolas por meio de empresas multinacionais que detém o domínio tecnológico de sementes, base para a produção de ração para aves, além de agroquímicos (biológicos, antimicrobianos, endectocidas, etc), e, por fim, as matrizes de animais, que se refere ao melhoramento genético da criação de aves. Associado a isso, essa planta produtiva organizada pela influência da interiorização das cooperativas não só foi profícuo para os monopólios se difundirem como também se serviram da mão de obra disponível no interior do país, espaços comumente desprovidos de grandes indústrias e geração de emprego.

       A ilusão do progresso e desenvolvimento caminham junto com esses empreendimentos que se formaram no oeste do Paraná na década de 1960, e se transformaram desde os anos 1990 nos maiores produtores de carne de frango processada do Brasil, com exportação desses produtos para outros países. Nessa conjuntura a mão de obra nacional é requerida, porém frente à inovação produtiva desses empreendimentos pautadas no modelo produtivo fordista/ taylorista, ocasionou a recusa desse trabalho pelos brasileiros. Isso tem impactado em excessiva rotatividade do trabalho que chega a 100% devido à negação dos trabalhadores nacionais a tais empreendimentos reconhecidos como geradores de adoecimento, trabalho simplificado e baixos salários. A demanda por mão de obra levou primeiro esses empreendimentos a busca-la junto às cidades vizinhas, chegando a um raio de até 300 km, e posteriormente a inserção de imigrantes veio a ser uma importante alternativa para não cessar a produtividade.

       O contexto das migrações massivas de haitianos para o Brasil a partir de 2010 ocorre num momento de crescimento econômico, onde aos brasileiros no interior do Brasil era dada a oportunidade de recusar o trabalho em frigoríficos. Assim, a demanda de trabalhadores e de trabalho se constituiu em um elo comum entre os frigoríficos e os imigrantes haitianos. Foi nesse contexto que iniciaram as migrações de haitianos para o oeste do Paraná. Especificamente em Cascavel, observa-se que os primeiros migrantes vieram como trabalhadores convidados ou temporários e foram trazidos por empresários da construção civil. A presença deles no que concerne aos empresários seria temporária, porém, para além dessa falsa impressão, a imigração fora posteriormente dinamizada pela formação das redes de apoio, sobretudo étnica e familiar. A imigração haitiana tem feito desses imigrantes uma importante mão de obra na composição do exército de trabalhadores de reserva no oeste paranaense e deu à Cascavel o status da cidade com o maior número deles no Estado.

        A nova era das migrações marca o maior envolvimento entre países de origem, trânsito e chegada, com uma acentuada migração entre países periféricos, o que intensificou por essa condição a extração de mais valia, ao passo que a criminalização da migração ganha centralidade no debate, com a consequente transgressão dos direitos humanos frente as políticas reduzidas ao fechamento das fronteiras.

       Ser imigrante na periferia tem precarizado as condições de vida desses imigrantes no Brasil, quais se deparam com baixos salários quando empregados, e por elevado desemprego entre eles, o que afeta as condições de vida para que possam continuar enviando remessas ao Haiti, e em muitas situações manter aqueles que não estão trabalhando no Brasil. As conclusões desse estudo indicaram o fechamento do mercado de trabalho aos haitianos, sendo hegemônica a contratação deles por frigoríficos em detrimento da sua presença em outros setores produtivos. Ainda percebe-se que os frigoríficos são os principais desempregadores, já que todos os haitianos demitidos e desempregados em Cascavel passaram por eles, o que demonstra a rotatividade como algo que também os atingem. O fechamento do sistema produtivo é perceptível até nos frigoríficos, onde se identificou a contratação quase que exclusiva por um único frigorífico da cidade: a Coopavel.

        O crescimento e o fortalecimento do exército de trabalhadores de reserva contribuíram para a feminização de determinadas atividades laborais dentro dos frigoríficos, e a hegemonia e imposição das relações de trabalho conforme os interesses das empresas. A expressividade do fechamento do sistema produtivo é ainda pior entre as mulheres, quais não possuem vinculação com praticamente nenhuma outra atividade fora dos frigoríficos, quando não atreladas a eles, encontram-se desempregadas. A situação de rejeição laboral dessas mulheres tem provocado situações extremas como meio de sobrevivência, a exemplo da prostituição. Entre eles algumas estratégias são desenvolvidas como meio de enfrentar o fechamento do sistema produtivo, dentre elas se destacam o bom comportamento dos que estão trabalhando e a indicação de outros haitianos desempregados, ou a procura de trabalho em grupos de pessoas, geralmente acompanhadas de algum haitiano com mínimo domínio da língua portuguesa. Neste contexto, constata-se que parte dessa população de migrantes tem sua mobilidade vinculada às transformações produtivas, e a importância delas, bem como de outros elementos como as redes migratórias para continuar a impulsioná-la, em especial no oeste do Paraná.


Informações sobre a autora:

Claudimara Bortoloto é docente  da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR/Medianeira) e doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Araraquara). 


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