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Os migrantes venezuelanos em Foz do Iguaçu, Paraná


O sonho de uma vida melhor é intrínseco do ser humano, porém, para isso, muitas vezes há a necessidade de algumas mudanças na vida. Assim foi com os venezuelanos que entraram no Brasil com pedido de refúgio uma vez que não preenchiam os requisitos para pedido de residência, vindo de todas as partes da Venezuela, atravessando fronteiras por todos os meios de transportes possíveis e que estivessem dentro do limite de condição financeira de cada um.

Em grande medida, o alto fluxo de migrantes venezuelanos fomentou uma procura desesperada por lugares que garantam condições dignas. Assim, por meio das redes sociais, foram sendo difundidas informações, garantindo um processo de dispersão dos venezuelanos por todo território brasileiro. Alguns se prepararam para a jornada migratória, os que tinham mais condições tiraram o passaporte, pediram todos os documentos necessários na Venezuela para poder recomeçar a vida em outro país.

No entanto, independente da existência ou não de um projeto migratório, todos os migrantes venezuelanos, apesar de muitas vezes não terem seus destinos planejados, vieram na esperança de encontrar uma vida melhor. Muitos se encorajaram e se aventuram por regiões próximas à Venezuela, pois caso não conseguissem emprego não se afastariam demais do País de origem. Contudo, outros foram mais longe, na procura de melhores condições de vida.

A chegada de venezuelanos em Foz do Iguaçu se deu de forma gradativa, porque são necessários alguns dias para chegar até a região de confluência das fronteiras do Brasil, Paraguai e Argentina. Em grande medida, os motivos que os trouxeram para Foz do Iguaçu estão relacionados às passagens aéreas, as quais são mais baratas do que para outras regiões. Além disso, o fato de Foz do Iguaçu ser fronteira com Paraguai e Argentina facilita a travessia dos imigrantes para tais países, onde não teriam maiores problemas com a comunicação, pois não precisariam aprender outro idioma.

Neste contexto, os migrantes foram chegando aos poucos e se acomodando de maneira singela, evitando chamar atenção e qualquer manifestação de preconceito e xenofobia. Muitos ficaram em abrigos e casas de passagem até que pudessem encontrar um trabalho para pagar o aluguel de uma moradia. Os que possuíam melhores condições não precisaram passar por abrigos e já alugavam uma casa para morar com a sua família e com seus poucos pertences.

A vida dos venezuelanos ao decidirem tentar um recomeço não é fácil, a saudade de casa, da família, da comida tradicional, dos lugares, amigos e parentes causa certo sofrimento. Não é raro, durante as conversas estabelecidas com os migrantes, expressões melancólicas e emocionadas, mas as condições precárias em que vivem na Venezuela os fazem pensar em não desistir e tentar se acostumar em um novo lugar. Como é comum entre migrantes, a ação de migrar encontra-se associada ao sentimento do retorno.

Enquanto migrar é resistir, buscam trabalho de maneira incansável, experiência que muitas vezes é difícil devido à documentação não regularizada, pois os empresários se negam a aceitar um funcionário que possa causar problemas trabalhistas. No entanto, cabe ressaltar que tal acontecimento ocorre por falta de informação por parte dos donos de empresas, que não sabem como reagir nessas situações, além de haver um preconceito enorme por parte dos brasileiros que desmerecem o trabalho dos imigrantes, mesmo que seja claro que os venezuelanos tem qualificação e a única coisa que lhes falta é oportunidade.

Muitos deles, na verdade a grande maioria, tem pedido de refúgio e aguardam o reconhecimento feito pelo órgão competente, o CONARE, que após a análise da situação de cada dos casos garante ou não à condição de refugiado no Brasil. Após meses de adaptação, as empresas de Foz do Iguaçu começaram a dar oportunidades de trabalho aos venezuelanos, que a princípio, como todo empregado, começavam com o período de experiência, não na aérea de formação ou atuação, mas no que lhe era oferecido.

Ao chegarem no município alguns venezuelanos resolveram constituir uma associação, a fim de organizar e recepcionar os demais venezuelanos. Os proponentes viram a necessidade de criar o coletivo para garantir algum suporte, ajuda e oportunidade aos novos imigrantes que chegam sem ter conhecimento do sistema no Brasil.

Cabe ressaltar que a constituição forma da Associação dos Migrantes Venezuelanos não foi uma tarefa fácil, pois demoraram alguns meses para a associação ser reconhecida no Serviço de Registro de Títulos e Documentos. A principal dificuldade foi o não reconhecimento da Lei de Migração de 2017. Atualmente, a situação dos venezuelanos em Foz do Iguaçu é de medo e insegurança devido ao perfil do atual governo federal. Neste sentido, os migrantes demonstram a preocupação em terem de abandonar a cidade para recomeçarem em outro local.


Autora:

Priscila Dutra - Advogada e acadêmica do Programa de Pós-graduação em Sociedade, Cultura e Fronteiras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).

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