• Manoela Jaqueira

PESQUISAS EM TEORIA DO CUIDADO E MIGRAÇÃO FEMININA EM TEMPOS DE COVID19


Nota Ilustração:Refugiados e migrantes atravessam a fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Foto: Hollandse Hoogte/Warren Richardson (via ACNUR)

A ideia inicial deste texto é abordar de forma resumida a teoria de cuidado na perspectiva da migração feminina e trazer uma reflexão desde a minha experiência de escrita na tese de doutorado, sob orientação do prof. Dr. Roberto Yamato no Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio, na tentativa de redesenhar a pesquisa em andamento, que necessita de novas alternativas direcionamentos que contemple o contexto mundial de Covid19. Assim, a ideia é compreender a migração desde uma perspectiva de gênero constrói um processo de reflexão sobre os estudos migratórios, com uma lente diversa diferenciando da tradicionalmente perspectiva estudada nos movimentos migratórios, pois consideramos que, as mulheres têm uma experiência diferente no projeto migratório. A tomada de decisão de migrar, o processo de mudança e as consequências da migração e a reunificação familiar possui uma relação distinta do ponto de vista da mulher, porque socialmente as mulheres estão em uma posição diferencia no que tange a relação de lugares de origem, migração, políticas, familiares, as oportunidades e restrições a que elas experimentam na fronteira ou no país de destino (PETTMAN, 2010).

Acerca das assimetrias em decorrência do gênero no processo migratório, Pettman (2010) comenta:

“Ya sea que los hombres o las mujeres se vayan (y la decisión de irse puede o no ser suya), todo el proceso ya tiene género, en términos de diferentes roles y relaciones en el hogar, los tipos de trabajo disponibles localmente o mediante la migración en un género, mano de obra y las formas en que se experimenta la movilidad y las fronteras. Las formas de explotación, violencia o discriminación que enfrentan los migrantes en el nuevo estado también están relacionadas con el género y están mediadas por otras diferencias corporales, como la raza, la clase y la nacionalidad” (tradução nossa).

Nesta perspectiva Gaye Yilmaz e Sue Ledwith (2017) dissertam que as mulheres são invisibilizadas como migrantes, e as estatísticas oficiais, nas pesquisas onde tendem a aparecer como grupos ou categorias de trabalhadores migrantes, raramente escutam-se suas vozes, mas, independentemente do seu status regulatório de migração, elas são agentes ativas no processo de migração, como poderão observar a mais adiante.


Diante, das desproporções e das novas categorias de análises que surgem a partir do momento em que se analisa a migração, com um olhar para o feminino, é possível observar a existência de trabalhos que são estritamente feminizados e consequentemente mais vulneráveis. Refiro com propriedade do trabalho de cuidado (trabalho doméstico, cuidado com crianças e/ou idosos) com ou sem remuneração. O setor do trabalho do cuidar, na escala reprodutiva, as mulheres são vítimas da redistribuição e inserção laboral injusta. Uma vez em que, faltam: reconhecimento e representação política, gerando desigualdades laborais e serviços etno-sexualizados, em escalas de maiores vulnerabilidades (FRASER, 2008).


É necessário mencionar que as mulheres migrantes têm participação ativa no cenário migratório, sendo esse na participação de decisão, seja no projeto para essa migração, fato é, as decisões têm sido femininas, bem como as remessas econômicas realizadas aos seus países de origem. Enfim, a migração feminina tem beneficiado tanto as famílias quanto seus países de origem, e também os países receptores pelos seus serviços prestados. A contribuição feminina é triplamente computada beneficamente (SASSEN, 2000). Em relação ao trabalho de cuidados, se observar mulheres migrantes que ocupam espaços destinados à outras mulheres de renda média/ou classes mais altas, que necessitam de uma pessoa (em geral outra mulher) para ocupar seu lugar no trabalho de cuidado, já que estas se encontram inseridas no mercado laboral, em geral de países de renda média ou desenvolvidos.


Neste sentido, Amaia P. Orozco e Silvia L. Gil (2011), comentam que:

“Los regímenes de cuidados adquieren un significado concreto en el contexto de la globalización. De un lado, la crisis de los cuidados de los países del centro implica la externalización y/o mercantilización de gran parte del trabajo que antes cubrían gratuitamente las mujeres en los hogares. Este proceso está estrechamente vinculado a la feminización de las migraciones, al generar fuentes de empleo crecientemente ocupadas por quienes vienen de otros países. […]De otro lado, no solo las personas individuales se mueven internacionalmente, sino que se perfilan agentes privados o públicos con capacidad de incidencia supranacional. Es decir, la provisión de cuidados está cada vez más protagonizada por agentes supranacionales. De un modo u otro, la perspectiva transnacional se torna imprescindible, tanto en términos analíticos como interpretativos y políticos” (OROZCO; GIL, 2011, p. 26-27).

A partir desta dinâmica de cuidado, a categorização do feminino na migração se justifica como necessário um aprofundamento investigativo, ser analisadas como: feminização da migração, funcionamento da dimensão de gênero e direitos humanos. Uma vez em que, há que se considerar a vulnerabilidade da categoria de análise, visto que a divisão de trabalho por gênero acaba por definir que as mulheres são responsáveis pelo trabalho reprodutivo, trabalhos vinculados ao setor domésticos e que a economia global faz parecer invisível (TICKNER, 2014).


Nesta perspectiva do trabalho de cuidado, Sjoberg e Tickner (2013), explicam que: Aunque muchas mujeres trabajan fuera del hogar, la asociación de mujeres con roles de género, como ama de casa, cuidadora y madre, se ha institucionalizado e incluso naturalizado, disminuyendo así la seguridad económica y la autonomía de las mujeres. (SJOBERG; TICKNER, 2013, p. 182-183, tradução nossa).


Assim, Hoschild e Ehernreich (2003) classificam que as cadeias globais de cuidados, em geral se estruturam por três grupos de mulheres: um grupo de mulheres, que por múltiplas razões, migram para o países de destino, para realizar trabalhos nas áreas em que as mulheres desses países não os fazem; migram para países historicamente considerados desenvolvidos; e um terceiro grupo que são de mulheres que ficaram no país de origem das migrantes e tem a função de cuidar da família (filhos e idosos), gerando, assim, uma cadeia de trabalhos de cuidado precarizado.

E por conta dessa cadeia de cuidados faz-se a necessidade da discussão da feminização da migração para além da globalização econômica e inclusão do gênero feminino nas categorias/escalas de análises, como o trabalho reprodutivo: reproduz as categorias interseccionalizadas - raça/etnia, classe, patriarcado e capitalismo global como estruturas que determinam as posições subjetivas das mulheres migrantes no contexto de cuidado injusto e global (PARREÑAS, 2015).


Desta forma com ênfase no fenômeno da feminização das migrações, dinâmica em que coloca as mulheres migrantes na área de cuidados, em uma categoria de maior vulnerabilidade, sujeitas a dinâmica interna (diretrizes e normas) de cada país, que a partir de uma ética-política, traçam diretrizes e políticas públicas que muitas vezes, em sua grande maioria, se afastam da retórica universalista dos direitos humanos e corroboram com o lugar de maior vulnerabilidade que o feminino migrante lhe é permitido ocupar.

REDESENHANDO A PESQUISA: Repensando alternativas metodológicas

A ideia para o desenvolvimento da tese até meados de abril era realizar entrevistas semiestruturadas com mulheres paraguaias que trabalham ou trabalharam em Foz do Iguaçu na área do cuidado (trabalho doméstico, cuidado com crianças e idosos), analisando a dinâmica da fronteira com foco nos Direitos Humanos. Esta análise seria realizada dentro de uma perspectiva feminista, da voz destas mulheres narradas a partir de suas experiências. No entanto com o contexto de pandemia (covid-19 desde março de 2020, onde fronteiras se fecharam e existiu a necessidade de isolamento social), apesar da pesquisa estar tramitando no comitê de ética, identificou-se que o cenário não é seguro, no sentido sanitário tanto para mim (pesquisadora/entrevistadora) como para as participantes (entrevistadas). Desta maneira tornou-se inviável a realização dessas entrevistas neste período de doutorado, tendo em vista que de acordo com previsão, a fronteira irá de manter fechada até dezembro de 2020, ainda a crise sanitária tende a estender até a distribuição massiva de uma vacina ou tratamento para o covid19. Em outras palavras, até a finalização da tese não é possível prever a abertura da fronteira e o contato com outrem.


Daí a necessidade do redesenhar a pesquisa em processo na busca de considerar alternativas metodológicas para substituir o trabalho de campo, que neste momento não se mostra seguro. Dessa maneira, a segunda parte do texto, não tem o intuito de debater a fundo as alternativas metodológicas, mas de lançar reflexões e alternativas para que pesquisadores como eu, tenham se visto impedidos de concluir suas pesquisas, sejam elas na área de migrações e fronteiras, ou quaisquer outras que necessita do trabalho de campo como corpo essencial da pesquisa, impedidos pela pandemia do covid-19.


Então desde o esforço de fazer a pesquisa de doutorado em tempos de pandemia sugiro que demais pesquisadores, foquem na seguinte pergunta: Quais são os desafios que enfrentamos para fazer pesquisa em tempos de covid19? Após elencar estes desafios, com base na especificidade da pesquisa, voltem a sua pergunta de pesquisa: O que busco responder com a minha pesquisa? O que será necessário re-planejar para que a pesquisa se efetive? Qual a metodologia mais viável?


Nesta perspectiva, muitas abordagens metodológicas já foram utilizadas. Podemos pensar em pesquisas qualitativas, quantitativas ou mistas e ainda observar que a pesquisa pode ser multi/inter/trans disciplinar.


Repensar quais alternativas possuo para substituir a pesquisa de campo, precisamente as entrevistas, por exemplo? Talvez, buscar documentos literários, artigos históricos, fotografias etc. que possam substituir o trabalho de campo, que no momento se mostra inviável. Buscar na gama de vestígios culturais que possibilitem a substituição das entrevistas. Mas para isso é necessário voltar aos textos metodológicos clássicos, esses talvez podem indicar alguns caminhos/alternativas, trazer a luz ensinamentos e novos recortes para solucionar estes entraves em tempos de isolamento social e/ou de fronteiras fechadas.


Algumas possibilidades de alternativas metodológicas que aponto como metodologias alternativas para redesenhar uma pesquisa e que compartilho, com o escopo de auxiliar outros pesquisadores de migrações e fronteiras a repensarem suas pesquisas são: a) Dados quantitativos – fontes estatísticas; b) Análises das redes sociais; c) Entrevistas virtuais (se houver possibilidade); d) Questionários online; e, até mesmo, d) Análise em redes sócio-digitais: etnografia das redes sociais.


Com uma pesquisa um pouco mais aprofundada seria possível elencar outras alternativas de coletas de dados, a fim de adaptar-se ao novo cenário estabelecido mundialmente, onde os cuidados sanitários são a prioridade em detrimento à vida são cuidados éticos com a pesquisa, onde centra-se em entender os sujeitos de pesquisa concomitantemente com o direito de sua integridade e privacidade, sem colocar em risco a vida do pesquisador e do investigado, pois é necessário não se colocar em risco, assim como não colocar em risco o investigado. É preciso se posicionar dentro do processo de pesquisa e adaptar o campo, que é dinâmico, complexo e fluído.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRASER, Nancy. Escalas de Justicia. Traducción de Antoni Martínez Riu Barcelona: Herder, 2008.

HOCHSCHILD, Ariel Russel; EHRENREICH, Barbara. Global Woman: nannies, maids, and sex workers in the new economy. New York: Metropolitan Books, 2003.

OROZCO, Amaia P.; GIL, Silvia L. Desigualdades a flor de piel: Cadenas Globales de Cuidados. Concreciones em el empleo de hogar y politicas públicas. Madrid: ONU Mujeres Santo Domingo, 2011.

PETTMAN, Jindy. Migration. In: In: SHEPHERD, Laura. Gender Matters in Global Politics: A feminist introduction to international relations. London and New York: Routledge, 2010, p. 251-264.

SASSEN, Saskia. Los espectros de la globalización. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2003.

SJOBERG, Laura; TICKNER, Ann J. Feminist Perspectives on International Relations. In: CARLSNAES, Walter; RISSE, Thomas; SIMMONS, Beth A. Handbook of International Relations, Los Angeles, London, New Delhi and Singapore: Sage, 2013, p.170- 194.

SUGESTÕES DE BIBLIOGRAFIAS PARA ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS

ARDÉVOL, E., (2016). Big data y descripción densa, Revista de cultura digital: Virtualis,  7(14), México, páginas14-38.

BÁRCENAS, K. y Preza, N. (2019). Desafíos de la etnografía digital en el trabajo de campo onlife, Revista de cultura digital: Virtualis, 10(18), México, ISSN 2007 2678, páginas 134-151.

CHOUDHURY, N. (2014). World wide web and its journey from web 1.0 to web 4.0., International Journal of Computer Service and Information Technologies, 5(6), ISSN 0975-9646, páginas 8096-8100.

CORA GARCÍA, Á., et. al., (2009). Ethnographic Approaches to the Internet and Computer-Mediated Communication, Journal of Contemporary Ethnography, 38 (1), páginas 52-84.

DURAND, J., (2015). “El oficio de investigar”. En Ariza, M. y Velasco, L. (coords.), Métodos Cualitativos y su aplicación empirista. Por los caminos de la investigación sobre la migración internacional, Instituto de Investigaciones Sociales y El Colegio de la Frontera Norte, páginas 45-73.

GÓMEZ CRUZ, E. y Ardèvol, E., (2013). Ethnography and the field in media(ted) studies: a practice theory approach, Westminster Papers, 9 (3), páginas 27-46.

LSE Digital ethnography collective (2020).

Lupton, D. (2020). Doing Fieldwork In A Pandemic, Documento abierto.

PINK, S., Horst, H., Postill, J., Hjorth, L., Lewis, T., y Tacchi, J., (2016). Digital

Ethnography. Principles and Practice, SAGE, Londres, capítulo 1.

VERA ESPINOZA, M., (2020). Lessons from Refugees: Research Ethics in the Context of Resettlement in South America, Migration and Society, 3(2020): 247–

253. DOI:10.3167/arms.2020.030121, páginas 247-253.

Sobre a autora:

Manoela Jaqueira é doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Rio, Mestra em Sociedade, Cultura e Fronteiras pela UNIOESTE, Especialista em Relações Internacionais Contemporâneas pela UNILA e graduada em Direito pela UNIOESTE, pesquisadora do LAFRONT

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